
Há tempos, alguém cujo nome já não recordo, escreveu uma crónica/ensaio sob o título: “Psicologia do Automobilista”. Dizia que o interior dos automóveis tornava anónimos os condutores.
Portanto, libertava-os da, por não observados por terceiros, pressão social sobre o individual. Por outras palavras: da influência coerciva da colectividade sobre a pessoa, singularmente considerada, no referente à eventual desobediência desta aos valores professados pelo sistema social. Esta seria a explicação para o facto, curioso, de até mesmo as pessoas normalmente tímidas, serenas, prudentes, se transformarem repentinamente em audaciosos aventureiros quando conduzindo.
Esse mesmo fenómeno foi já constatado em relação à pessoa humana inserida na multidão. Na essência, tanto a primeira situação (interior do automóvel) como esta segunda (interior da multidão), se apoiam no anonimato. De facto, no meio da massa, o rosto definido dum determinado alguém dilui-se. Some-se. E, aquele alguém determinado, não se sente responsável enquanto anónimo. Enquanto pessoa diluída naquele agrupamento amorfo. À qual ninguém liga. Daí, o fenómeno, derivado, da dificuldade para a contenção das massas furiosas, irracionalmente comprometidas, por exemplo, numa manifestação.
Fenómeno essa, o da irracionalidade das multidões, que levou o papa Pio XII a escrever a página antológica sobre o conceito de Povo, oposto ao de Massa. Povo, como conjunto de pessoas conscientes, cientes dos direitos, mas igualmente de deveres. Sensatas; e Massa, aglomerado informe e pessoas demitidas da sua interioridade de seres humanos racionais e responsáveis, tangidos para cá e para lá pela técnica da demagogia.
O que realmente interesa, particularmente, é o caso do anonimato no transito; tela na qual s vem projectando o exercício (liberto pelo anonimato e por ele protrgido), dos pequenos gestos de grosseria, como a buzina desnecessária; a do impedimento de que alguém ultrapasse, apesar do pedido pela sinalização; a criação de obstáculo a que o veículo situado na travessa tenha acesso à via principal. Trata-se de pequenos egoísmos, de pequenas descortesias, de arrogâncias pequenas. O espectáculo do trânsito oferece uma grande amostra, como se diria em estatística, para estudo do que vai no íntimo das almas.
Eis a razão porque Dom Fulton Sheen, aquele bispo católico norte-americano, tão lido pelos jovens dos anos cinquenta e sessenta, escreveu em “Angústia e Paz”: «as guerras mundiais não passam de projecções dos conflitos travados dentro das almas dos homens modernos, pois nada acontece no mundo exterior que não tenha primeiro acontecido dentro da alma.”
O problema do mundo, insistem os espiritualistas, é religioso. O espaço no íntimo das pessoas, vazio de religiosidade, está preenchido pelo egoímo, conforme atesta o deeconcerto do trânsito, na verdade o desconcerto das almas.
Sem comentários:
Enviar um comentário