
Devemos lembrar-nos do que foram os anos da ditadura em Portugal. Da pauperização da classe média que dela resultou, das perseguições e prisões, de quantos amigos competentes foram demitidos ou convencidos a demitir-se, só porque tinham a coragem para dizer as verdades e foram, tristemente abandonados na pobreza.
Devemos lembrar-nos dos professores das universidades públicas que, em virtude dos fracos salários congelados, preferiram aposentar-se e procurar emprego em colégios privados. Do modo como foram contratados professores com carácter precário, originando assim as reivindicações da classe.
De como foram lançadas à sucata as repartições públicas, onde tudo faltava, não apenas pessoal como material básico, até de limpeza. Do “exército de marginalizados” que, recebendo salários miseráveis, ocupou o lugar dos retirados dessas mesmas repartições e só fizeram fortuna aos empresários do ramo.
Das enormes filas nos guichés dos serviços sociais devido à falta de pessoal que atendesse as pessoas.
De como ruiram monumentos históricos por falta de pessoal especializado na sua conservação e restauração, nunca sendo contratados naqueles anos sombrios. Agora, veio o neoliberalismo e, quando por qualquer motivo se apanha um táxi, o motorista é um engenheiro, economista ou outro licenciado vítima da aridez da máquina pública.
As fábricas fechadas e o aspecto deprimente do país Portugal, outrora ocupado por negócios promissores.
Da miséria em que vivia o povo nordestino, minhoto, beirão, duriense ou alentejano, sem o mínimo necessário para sobreviver. De tantas raparigas prostituídas pelas condições miseráveis das suas famílias e dos índices de mortalidade infantil que antes tínhamos.
De tantos jovens que optaram e optam pelo crime, porque não tinham nem têm qualquer perspectiva de inserção no mercado de trabalho, devido a uma política económica que considera isso apenas um efeito perverso dum modelo que um dia ia fazer Portugal um país rico. É muito importante que recordemos aquele Portugal sem esperança e do pessimismo que hoje se vive.
Aquele Portugal dum povo humilhado e sem expectativas, este Portugal sem qualquer esperança… Um país com salários congelados e sem uma redistruibuição da riqueza, estaganada em poucas mãos, sem o aumento gradual do salário mínimo e do fortalecimento das instituições públicas; sem a valorização dos professores nem da eficiência da máquina pública a partir da criação dum quadro de funcionários sujeitos a concursos. Do enriquecimento das empresas estatais, que são património de todos os portugueses.
Oferecem-nos um quadro que piora a realidade da vida, que atinge a todos e os torna infelizes, excepto os preconceituosos que colocam acima da felicidade e do bem-estar do povo as modas duma elite fútil e inconsciente, com um discurso de falso moralismo dos que pretencem inviabilizar a era do progresso.
Se todos se recordarem de tudo isto, será meio caminho andado para que se verifiquem melhorias no nosso país.
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