
«Não me admira muito a facilidade com que Cavaco Silva se deixouenredar na armadilha do BPN. Pode-se pensar que foi falta de previsãoda sua parte, mas eu acho que foi antes falta de visão: Cavaco Silvaacha-se genuinamente acima e imune ao que considera "baixa política".E baixa política, para ele, pode ser muita coisa, mesmo aquilo que éperfeitamente legítimo e normal na luta política. A sua pretensão é ade andar à chuva sem se molhar, fazer política fingindo-se acima dela.Ainda na recente mensagem de Ano Novo, referiu-se aos "agentespolíticos", como se deles não fizesse parte: E antes execrou apestífera espécie dos "políticos profissionais", como se os dezasseteanos que leva de funções políticas públicas tivessem sidodesempenhados a título gracioso. E o mesmo em relação ao desdém quevota à "política partidária", como se não tivesse çhefiado durante dezanos um partido político.Não admira, assim, que, desenterrado o assunto BPN, Cavaco Silva tenhareagido conforme a sua natureza política, em três diferentes esucessivos andamentos: indignação majestática, desconsideraçãopolítica e intimidação senhorial. Na primeira fase, achou que lhebastaria dizer que seria preciso que alguém "nascesse duas vezes" paraconseguir ser tão honesto como ele - uma resposta à medida dasuperioridade moral que atribui a si mesmo, mas contraproducente,visto que reconhecia que o assunto BPN era uma questão de honestidade.Na segunda fase, achou (como no caso da "conspiração das escutas",engendrada entre Belém e o "Público"), que se podia contentar comexplicações que não vinham ao caso e nada interessavam: queconsultassem a sua declaração de rendimentos (que não contém respostasa nada do que está em causa); que aplicou as suas poupanças em quatrobancos (o que só seria relevante saber se nos outros três tivesseobtido lucros tão extraordinários e fulminantes como no BPN); que setratava de ‘poupanças de uma vida de trabalho’, (como se o queimportasse fosse conhecer a origem do dinheiro investido e não a razãodo dinheiro acrescentado); e que pagou todos os impostos devidos pelaoperação BPN (impostos insignificantes e cujo pagamento, deduzido àcabeça pelo Banco, ninguém questionara). Enfim, na terceira fase – adas ofensas – deu homem por si para acusar Alegre de ‘campanha suja,‘indecente’, ‘ignóbil’, ‘cobarde’, ‘desonesta’ e de ‘baixa política’.E para concluir que ‘já tinha esclarecido tudo o que havia aesclarecer’. Pelo menos, vá lá, sempre reconheceu que alguma coisahavia a esclarecer.Não sei ainda que desenvolvimentos terá este assunto nos próximosdias. Mas hoje, quinta-feira, em que escrevo este texto, duas coisassão claras para toda a gente: que, ao contrário do que afirma, CavacoSilva não esclareceu nada do que interessava esclarecer e que já todosentendemos a razão para tal. Mas, como o assunto é, evidentemente,político, convém começar por responder a duas objecções políticasprévias dos defensores de Cavaco Silva.A primeira tem a ver com a oportunidade do tema: porque é que oassunto só agora desceu à praça pública, porque é que um negócioparticular, ocorrido entre 2001 e 2003, só agora surge questionado?Porque o negócio só foi conhecido em 2009, através de uma notíciadeste jornal, embora já fosse falado à boca-pequena muito antes disso;porque, entretanto, o BPN foi nacionalizado e transformou-se num casocriminal, com as responsabilidades financeiras a cargo doscontribuintes; e porque, obviamente, estamos em campanha eleitoral eCavaco Silva é candidato.Isso remete-nos para a segunda questão prévia, que é a da legitimidadedos pedidos de explicações ao candidato-Presidente. Será isso apenasparte de uma campanha suja e desonesta? Não creio: será que, se setivesse descoberto, durante a campanha presidencial americana, queObama tinha conseguido uma taxa de lucro astronómica e rapidíssima cominvestimentos num dos bancos intervencionados pelo governo federal como dinheiro dos contribuintes, isso não teria sido tema das eleiçõesamericanas? Ou se se tivesse descoberto o mesmo acerca de um negócioentre Gordon Brown e um dos bancos ingleses que o Governo teve denacionalizar para evitar a falência? E se, por acréscimo, os bancos emcausa fossem geridos na altura por amigos políticos ou pessoais deObama ou Gordon Brown? E se, porventura, se descobrisse que tinha sidopor ordens directas de um desses amigos e presidente do banco que elestinham conseguido esse negocio da China? Em que democracia do mundo éque isto não seria tema de campanha e em qual é que ao candidato emcausa bastaria responder que era preciso nascer duas vezes para sertão honesto como ele? Ao contrário do que Cavaco Silva gostaria, nãolhe basta declarar que não é político para se poder comportar como seo não fosse.A questão é esta: em teoria, qualquer um de nós (vá-se lá saber como... ), podia ter valorizado em 140% e em menos de dois anos uminvestimento no BPN, e não devia explicações a ninguém. Mas quemexerce o mais alto cargo do Estado, quem, validando uma decisãonefasta do Governo, teve a responsabilidade de nacionalizar o BPN,chutando para cima de nós uma factura que neste momento vai já em 500euros por cidadão (e muito mais para os que verdadeiramente pagamimpostos) devia, pelo menos, sentir-se incomodado por ele próprio terganho uma pequena e instantânea fortuna onde todos nós perdemos, semculpa alguma. E, sobretudo, quando hoje já é claro que, corri um bancoparalelo e 'virtual' numa garagem e outro banco de fachada em CaboVerde, o BPN foi roubando os depositantes em benefício de algunsaccionistas e outros privilegiados. E que tudo isto acabou num casocriminal escabroso como não há memória em Portugal. Bem pode Cavaco,para desviar as atenções do essencial, questionar a gestão pública eposterior do BPN ou tentar comparar a situação à dos bancos inglesesnacionalizados: uma coisa são as eventuais falhas da actual gestãopública do BPN ou os danos causados nos bancos ingleses por práticasde gestão irresponsáveis e aventureiras; outra coisa. são asconsequências das actividades criminosas ocorridas no BPN, sob apresidência de um amigo político do Presidente.Com tantos anos na "política profissional", Cavaco Silva não deviaesquecer algumas das regras do jogo: que, na política, a única coisaque não se pode matar é o passado, que a vingança se serve fria e quenão se deve desafiar quem nos pode atingir. Ao optar, soberbamente,por achar que ninguém se atreveria a questionar o seu passado com oBPN, ao imiscuir-se na última campanha das legislativas, lançandograves suspeitas contra o Governo com a história inconcebível dasescutas inventadas, e ao não hesitar em atacar, para se defender, aactual administração do BPN e da CGD (onde estão amigos e membros dasua comissão de honra), Cavaco Silva pôs-se a jeito para o que agoralhe sucedeu. O ‘aparecimento’ do despacho em que Oliveira Costa ordenaque se lhe comprem as acções da SLN e onde fixa o extraordinário preçode compra das mesmas, não conseguirá retirar-lhe a reeleição, masretirou-lhe, e para sempre, coisas que, do meu ponto de vista, são bemmais importantes.Assim, ficámos a saber, por outra via, duas das respostas que ele serecusou a dar, por si mesmo: quem lhe comprou, as acções da SLN e quemfixou arbitrariamente o preço de acções que nem sequer estavam cotadasem bolsa. Foi Oliveira Costa - seu ex-secretário de Estado dosAssuntos Fiscais, ex-membro da sua Comissão de Honra na candidatura de2005 e financiador da campanha, ex-presidente do BPN e chefe daquadrilha a quem devemos 5000 milhões de euros de responsabilidadesfinanceiras assumidas pelo Estado em nosso nome.Restam as outras perguntas a que só Cavaco Silva pode responder; mas aque não responderá: quem e como o convenceu, a ele e à família, ainvestir na SLN, dona do BPN? Como e porquê resolveu sair? Nãoestranhou uma mais-valia de 75% ao ano? Não lhe passou pela cabeça queisso pudesse ser um negócio de favor à sua pessoa política? Nãodesconfiou, para mais sendo professor de Finanças, da solidez de umbanco que assim remunerava investimentos particulares? Conhece maisalgum cliente do BPN que tenha realizado semelhante negócio com obanco? Ou mais alguém que tenha realizado negócio semelhante comqualquer outro investimento financeiro, nessa altura?Responda ou não, já é tarde de mais».
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