
Deficiente é todo aquele que não consegue modificar a sua vida, aceitando as imposições doutras pessoas, ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que nasceu dono do seu destino.
Assim, temos aqueles que socialmente são chamados «loucos», que são os que não procuram ser felizes com o que possuem. Um cego, é aquele que não vê o seu próximo morrer de frio, de fome, na miséria, só tendo olhos para os seus míseros problemas e pequenas dores. Surdo, é todo aquele que não tem tempo para ouvir um desabafo dum amigo ou o apelo dum semelhante, porque está sempre apresado para ir trabalhar, querendo garantir os seus tostões no fim do mês.
Mudo, é aquele que não consegue dizer o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia. Paralítico, é quem não consegue anda na direcção daqueles que precisam da sua ajuda. Diabético, é quem não consegue ser doce. Anão, é quem não sabe deixar crescer, dentro de si, a solidariedade.
Uma terrível deficiência, mais moderna, é verdade, é o egocentrismo generalizado Vive-se um simulacro existencial, que pode ser percebido a partir de conceitos e valores hoje em desuso quase total. A sociedade actual rege-se através dos seus aparelhos ideológicos, mais da classe média, é verdade, tudo o que é produzido e oferecido pelos denominados intelectuais pós-modernos.
Poucos ligam importância à solidão em que vive uma grande parte da população nacional. As relações afectivas e sociais viram-se transfomadas e ultrapassadas pelas novas tecnologias e, o que se procura hoje, é uma relação com os tempos modernos, na qual prevaleça o individualismo e não mais uma relação entre as pessoas.
Em muitos casos ocorre um processo de despersonalização progresiva, como na doença de Alzheimer que, como se sabe, atinge mais a mulher, que perde as suas características para se tornar num ser vegetal.
A palavra de ordem deste novo século poderá ser a de colocar mil entraves a quem pretende cuidar dessas pessoas, as mais pobres e carentes. Ninguém quer perder o seu individualismo, mesmo nas questões mais relevantes, como cuidar de pesoas que precisam de todos nós.
Até parece er defeito ser-se velho, porque logo se vê empurrado para a solidão e a ignorância.
Porque o indivíduo moderno entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser
encontradas dentro dele próprio, nunca a partir doutras pessoas.Mas, a pior de todas as deficiências é ser miserável. Miseráveis são todos os que não conseguem falar com o próximo, não compreendendo que nem sempre é suficiente ser perdoado. Porque nesse caso, temos de saber perdoar-nos a nós próprios e ler atentamente, por exemplo, porque afinal há mais miséria que a que se possa imaginar, e não é só a vivida pelos mais pobres. E falta também vergonha em muitos casos.
Sem comentários:
Enviar um comentário